Flordelis: conversa franca

9 nov

Flordelis – Basta uma palavra para mudar

“Evangelismo na Madrugada” era o nome de batismo de seu projeto-piloto, que consistia em conversar com jovens viciados em drogas pelas madrugadas do Rio de Janeiro. A responsável pela idéia atende pelo nome de Flordelis, hoje conhecido em todo Brasil graças à grande repercussão de seu trabalho de recuperação dos envolvidos com o tráfico. O segundo passo, foi o início de uma série de adoções, especialmente de adolescentes e crianças abandonados em uma das maiores estações de trem do país, a Central do Brasil. Após o resgate de uma menina em um lixão, as portas de sua casa se abriram para inúmeras crianças que buscaram refúgio e segurança. Assim nascia a família Flordelis.
Sua história, desafios com a justiça, as adoções, fugas e conquistas, é contada em um filme que teve a participação de artistas consagrados. No Festival do Rio, no Cine Odeon, arranca aplausos da platéia com a frase que representa bem sua vida e sentimento: “Essas crianças não são estatísticas, são meus filhos.”

Larissa D`Almeida: Como começou seu ministério de louvor?
Flordelis: Quando ainda era pequena, vivia num lar cristão e meu pai montou um conjunto evangélico e colocou o nome de Angelical; a partir daí eu comecei a viajar com esse conjunto. Só parei aos 15 anos quando houve um acidente na Via Dutra e morreram quatro componentes da banda, sobrevivendo apenas três. Esse acidente foi noticiado em todo o Rio de Janeiro e Brasil. Então eu parei. Durante esse tempo, fazíamos o evangelismo nas madrugadas, nas favelas, me casei, tivemos nosso filhos e então, voltei a cantar.

LD: Quem compõe as músicas que você canta?
FL: São amigos como Fabiano Barcelos, Anderson Fontes, Anderson Freire, Vânia Santos. São amigos que o Senhor vai levantando.

LD: No passado você sonhava que um dia estaria lançando um CD?
FL: Sonhar a gente sonha, né? Difícil é a gente acreditar que vai acontecer, mesmo tendo um Deus grande e poderoso. Eu morava numa favela e a gente olha a nossa volta e não há muitos recursos. A gravação de um CD é uma coisa que até hoje é muito cara, até mesmo numa gravadora grande como a MK Music. Eu sempre sonhei, sempre pedi a Deus que um dia fizesse isso na minha vida, mas eu olhava com olhar humano e, de verdade, não enxergava que as coisas iriam acontecer desta forma.

Recebendo o disco de ouro pelo CD Fogo e Unção

LD: Quais foram são seus maiores incentivadores?
FL: Meus maiores incentivadores, além da minha mãe, que sempre motivou meu ministério, são meu marido e a minha filha mais velha Simone. Eles sempre foram meus maiores incentivadores.

LD: Quais são as suas referências musicais?
FL: São tantas referências musicais que eu tenho ao longo dos anos, até porque são muitos anos de caminhada. Mas, a minha referência atual é alguém que eu aprendi a amar, uma pessoa super simples e humilde em quem eu tenho visto Deus. É a Bruna Carla.

LD: Algum dos seus filhos também tem ministério de louvor?
FL: Eu tenho filhos que hoje estão cantando, mas também tenho outros que tocam instrumentos, como teclado e violino e tenho filhos que tem o sonho de serem pastores, seguindo o meu exemplo. Isso é muito bom, porque hoje sou referência para eles.

LD: Como foi o seu encontro com seu esposo?
FL: Quando nos casamos, eu já tinha 5 adolescentes morando comigo. Eu vim de um casamento que não deu certo porque meu ex-marido não gostava do trabalho que eu fazia na favela. Eu sempre gostei de desafios.
O pastor Anderson veio com um grupo de jovens que foi fazer evangelismo na madrugada junto comigo e eu não via que isso um dia pudesse acontecer, que pudéssemos nos apaixonar e nos casar. Éramos pessoas muito diferentes, apesar do nosso gosto em fazer a obra. Um belo dia ele resolveu me pedir em casamento! Ele já me conheceu no evangelismo na madrugada, nas minhas maluquices como chama até hoje. Ele fala que eu tenho dois parafusos a menos. (risos)
Eu nunca orei por isso, porque não pensava em me casar novamente e, acredito, sobre a questão do casamento, que Deus abençoa a nossa escolha, pois Deus não é santo casamenteiro. Conheço muitos casamentos que aconteceram por profetas e que não deram certo, são cheios de crises e problemas. O meu não teve profecia ou revelação, nem visão; simplesmente nos conhecemos, fizemos a obra, nos apaixonamos, nos casamos e nos damos super bem. Temos crises como em todo casamento, mas temos algo que muita gente não tem: somos amigos de verdade, nós nos completamos de verdade.

Flordelis e o marido Anderson

Deus abençoa a nossa escolha. Se fosse somente a escolha de Deus não precisaria o tempo do namoro e do noivado. Você conheceria hoje e poderia se casar amanhã que daria certo. Não é assim. O namoro e noivado é para que se conheça a pessoa e não case com ela no escuro. Se for sem vergonha, Deus mostra! Nesse momento entra o agir de Deus; quando você conhece um pilantra que está com capa dentro da igreja, no período do namoro e do noivado Deus tira a capa para que você veja. Mas, se você insistir em casar, vai pagar o preço. O namoro e o noivado é tempo de Deus para mostrar se a pessoa presta ou não para você.

LD: O filme que você fez teve a participação de muitos atores conhecidos. De que maneira esse trabalho beneficiou diretamente o seu ministério?
FL: Agora, depois de dois anos, estamos tendo retorno financeiro com a venda dos DVD`s. Nós não víamos retorno financeiro algum porque o filme teve custos para ser feito. Foi uma produção independente e os atores vieram voluntariamente, não cobraram nada. O mais caro para fazer um filme é o cachê do artista, principalmente do quilate dos que participaram desse filme. São artistas caríssimos que não cobraram nada, mas ainda tivemos despesas de câmeras e muitas outras que foram pagas com a bilheteria do cinema. Hoje é que estamos tendo retorno com a venda dos DVDs. Eu ainda sonho em comprar a minha casa com a venda dos DVDs e com o meu CD. A MK, a produtora do CD, não só lança você, como também te expõe na mídia. Eu creio que a MK é uma promessa de Deus se cumprindo na minha vida.

Atores e atrizes que participaram do filme

LD: No site do Instituto Flordelis tem depoimentos de alguns artistas que fizeram o filme dizendo que vão a sua casa. Isso é freqüente?
FL: Hoje não muito. Na época do filme eles frequentavam mais. Mas nós temos artistas que se tornaram nossos amigos como a Ana Furtado, a Fernanda Lima que já foi lá em casa, já tomou banho de piscina com as crianças, é amiga mesmo, a cantora Elba Ramalho, Cauã Reymond, Aline Moraes, Sergio Marone… São pessoas que se tornaram nossos amigos e sei que se ligar eu posso contar. Mas eu não me utilizo disso, não uso artistas para pedir ajuda porque acredito que Deus me levou até eles não para pedir, mas para ganhá-los para Cristo. Não se prega um Deus grande, de providência com uma caneca de esmola na mão. Eu prego para eles sobre um Deus que supre todas as minhas necessidades.

LD: No meio daquela filmagem, onde muitas não conheciam a Jesus, você viu alguém se quebrantando?
FL: Eu vi Deus quebrantando muitos corações. Hoje, o Eric Marmo é evangélico, é crente na essência da palavra. Eu creio no quebrantamento da Fernanda Lima, que se interessa muito em conhecer o evangelho. Creio na conversão de muitos deles como o Sergio Marone e Cauã Reymond. Eles não conheciam nada de Jesus e tinham um pensamento errado sobre o evangelho e, hoje, eles sabem que Jesus não é uma religião, é transformação de vida.

LD: Como foi tornar-se mãe de tantas crianças?
FL: O meu primeiro casamento acabou quando eu tinha 27 anos e 3 filhos. Neste período comecei a fazer um trabalho na comunidade em que morava no Rio de Janeiro: a favela do Jacarezinho. Não planejei nada. Eu percebi que havia crianças morrendo por causa das drogas e saía de madrugada pelos bailes funk para conversar com elas, com os jovens e conquistar a confiança deles. Quando tirei um menino o paredão da morte, vi que era um trabalho que dava certo e que devia ser feito. Ele tinha 13 anos e ia ser assassinado por dívidas. Esse foi o primeiro que veio morar comigo como resultado desse trabalho missionário.

Flordelis em família

LD: E as famílias deles faziam alguma coisa?
FL: As famílias já tinham aberto mão. Não se importavam mais. Muitos começavam a freqüentar minha casa com desculpas como jogar vídeo game e iam ficando de vez. As mães sempre me impressionavam nessas situações de drogas que presenciei pela capacidade de abandonar seus filhos tão rápido. Não faziam o menor esforço para tentar salvá-los. Na favela, a droga é encarada como um caminho sem volta. Eu precisava fazer alguma coisa para mudar isso.

LD: E como foi a chegada dos outros filhos?
FL: Passado alguma tempo, fui procurada por uma mãe que disse que a filha havia fugido de casa e precisava de ajuda para encontrá-la. A menina, de 12 anos, tinha fugido porque estava com medo de apanhar do pai por causa de drogas. Eu fui até a Central do Brasil que foi onde disseram que a menina estava e não a encontrei. Porém, a realidade com a qual me deparei foi chocante prá mim. Milhares de moradores de rua, entre mulheres grávidas, idosos, crianças, bebês… Uma mulher que parecia louca disse que estava de resguardo, mas não havia nenhum nenê com ela. Encontrei o bebê em um terreno baldio; eu e meu atual marido pegamos a criança e a levamos para casa.

Flor e seus filhos

LD: A grande maioria veio muito rápido?
FL: Há 15 anos eu voltei na Central do Brasil para tentar alimentar um casal de gêmeos que eu havia visto, mas eles estavam internados. Passei a acompanhar os bebês no hospital; os pais haviam sumido. Após a melhora dos gêmeos os levei para casa. Depois de um mês, eu acho, um carro passou atirando nos meninos que dormiam na Central. A mulher meio louca que abandonou a criança no terreno baldio juntou todo mundo e levou pra minha casa. Naquela noite, 37 crianças, entre elas muitos bebês, foram viver comigo e me tornei a mãe deles.

LD: Como era cuidar e sustentar tantas pessoas?
FL: Nós não éramos ricos. Eu era balconista e meu marido, bancário. Mesmo assim decidimos pelas crianças. Morávamos em uma casa com dois quartos, na favela. Procuramos ajuda na Ação da Cidadania, do Herbert de Souza e por muitos meses eles ajudaram. Como ele estava doente e temia pela continuidade do trabalho, divulgou a história na mídia; foi quando a Globo fez uma reportagem.

LD: Como vocês se sustentam hoje?
FL: Vivemos de aluguel. Sempre que o valor aumenta, nós nos mudamos e já foram muitas vezes em todos esses anos. Hoje, moramos em Niterói e o aluguel é pago pelos irmãos que fundaram o Instituto Criança. As necessidades básicas como roupas e comida, pago com meu trabalho. Eles também têm bolsas de estudos em cursos e estudam em escolas públicas. Alguns já trabalham e ajudam. Quero que estudem e sejam alguém na vida. Não os ensino a ter pena de si mesmos, mas que saibam que vieram de uma realidade muito difícil. Eles conhecem sua história e que nada é fácil na vida. Precisam lutar.

LD: Qual é o projeto atual?
FL: Eu gostaria de construir uma casa. É meu sonho. Não quero que meus filhos não tenham onde morar quando eu não estiver mais aqui para cuidar deles. Acredito que vão continuar juntos, como irmãos, mas quero que estejam seguros.

LD: Como você avalia o problema das crianças de rua?
FL: A rua torna-se atraente quando a casa é problemática. Acredito que o grande problema das crianças são suas famílias. Eu vi isso aconteer muitas vezes, sei o que estou falando. As mulheres de rua que me causavam tanta pena, são, na verdade, máquinas de produzir filhos. Usam as crianças para ganhar dinheiro. Através da igreja, hoje, atendo a mães da favela e tento ajudar na educação de seus filhos. Converso sobre abuso sexual que as meninas sofrem – e não são poucas – dentro de casa. As famílias não têm estrutura e a igreja também não está preparando seus jovens para o futuro. Muitos jovens de famílias problemáticas não são tratados e formam novas famílias problemáticas.

LD: Qual a mensagem que você gostaria de deixar para outras mães?
FL: Gostaria de dizer que mesmo ocupadas e atarefadas no mundo maluco de hoje, não esteja ausente da vida de seu filho. Não abandone seu papel de mãe. Para as que tem filhos difíceis, insistam e corram atrás deles! Não desistam de seus filhos! Eles são bênçãos e vai valer a pena a sua luta. Meus filhos, todos eles, são o maior presente que eu tenho nesta vida.

(Entrevista realizada em 10/01/11 com a Pra. Flordelis no lançamento de seu CD na A.D. Missão Vida em Colégio.)

Larissa D`Almeida em parceria com Érika Gonzaga.

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6 Respostas to “Flordelis: conversa franca”

  1. Jesarela Neves novembro 10, 2011 às 3:41 pm #

    Muito boa a entrevista!!!!! Eu gosto muito da Flordelis! Ela é uma mulher de coragem que tem um trabalho muito bonito, com as crianças carentes.
    A repórter está de parabéns!!!

  2. bloggdacissa novembro 10, 2011 às 10:45 pm #

    Oi, Jesarela!
    É verdade, o trabalho dela é realmente impressionante!
    Abraços!

  3. Lorena novembro 15, 2011 às 8:52 pm #

    Quero dar os meus PARABÉNS AO BLOGGDACISSA por essa entrevista fantástica!

    Essa supermãe está honrando o nome do nosso Senhor Jesus, gastando seu tempo e sua vida na obra de Deus.

    Que fique de exemplo a todos os “líderes” do nosso país, sejam religiosos ou não, a ajudar mais o próximo.

    Novamente meus parabéns a esse blog por divulgar o amor ao próximo!

  4. lu silveira novembro 21, 2011 às 8:21 pm #

    Oi!

    Amo a Flordelis, ela é uma bênção! Gostei mto da entrevista, respondeu tudo o q eu queria saber!

    beijos!!!

  5. luiza paranhos dezembro 23, 2011 às 5:13 am #

    meu deus! lara! até a flordelis vc já entrevistou! q orgulho!
    ficou mto boa a entrevista, completa! parabéns!
    e vc escreve mto bem! (eu to puxando saco!!!) mas é verdade, vc tem talento!
    torço mto por vc!!!
    parabéns!!!!!
    :))))

  6. Maria Fernanda Gondim abril 4, 2012 às 5:17 pm #

    Lari!!!
    Adorei seu blog!!! Você já nasceu jornalista garota! 🙂 Muito boa a entrevista com a Flordelis, completa! Conheci o trabalho dela através do Instituto da Criança, é uma história maravilhosa!
    Bjs!

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