Aventura em Guiné Bissau

16 nov

Arlindo e Sueli contam como é fazer missões na África

Por Larissa D`Almeida

LARISSA D`ALMEIDA: Como vocês sentiram o chamado de Deus para este ministério?

SUELI: Eu estava no terceiro e penúltimo ano do seminário quando recebemos uma carta com um apelo de Guiné-Bissau para o Instituto Bíblico. Por causa da guerra que tinha acontecido, se não chegassem professores lá urgentemente o seminário iria permanecer fechado. Com a Guerra Civil que aconteceu em 1998, os missionários que estavam lá voltaram para as suas terras, então o seminário fechou. Eu já tinha chamado transcultural para a África e estava naquele período de oração quando chegou esse apelo. Eu senti no meu coração, da parte de Deus, de atender esse chamado para Guiné-Bissau.

LD: Há quanto tempo vocês estão no campo missionário?

SUELI: Seis anos e meio. Nós fomos para lá em janeiro de 2002.

LD: No que consiste o trabalho de vocês em Guiné-Bissau?

SUELI: Consiste, basicamente, no treinamento de líderes nativos, ou seja, líderes guineenses. Nós treinamos pastores, futuros pastores, missionários, obreiros em geral. Além disso, de acordo com a necessidade do campo, desenvolvemos um trabalho também na área social. Como eu sou enfermeira, nós fundamos uma clínica dentro do Instituto, na região onde moramos. Não havia nenhum trabalho nesse sentido e hoje a clínica atende às 36 aldeias que estão ao redor. Também fundamos uma escola com ensino normal e bíblico que vai do jardim até a décima classe. Entendemos que é uma grande e eficaz estratégia de evangelização.

LD: Vocês tiveram o apoio da família para isso?

SUELI: Sim. Tivemos um apoio moral por parte da família. A minha família, graças à Deus é toda cristã. Claro que sentimos aquele aperto no coração de nos separarmos; mas eles nos deram, nos doaram para a obra de Deus.

LD: Como vocês se conheceram?

SUELI: Foi no seminário. Nós éramos da mesma turma, sendo que eu era aluna externa, ou seja, não vivia no seminário por morar na mesma cidade onde estava a sede. Já o Arlindo, por ter vindo de outro país, era aluno interno. No quarto e último ano, como eu tinha que fazer monografia, fui morar no seminário, me tornando aluna interna. Há um tempo atrás, quando ainda estava no segundo ano, fui noiva de outro rapaz. Estava com tudo preparado para casar, mas terminamos. Então, no período em que me mudei para o seminário, já solteira, conheci o Arlindo, esse negão maravilhoso!

LD: Podem citar alguma experiência marcante desses anos de ministério?

ARLINDO: Quando fomos escolhidos para sermos diretores do Instituto Bíblico em Guiné-Bissau.  Eu nunca liderei nada desse tipo e foi uma coisa que Deus fez e marcou minha vida. Havia pessoas no momento que poderiam assumir o cargo, mas Deus quis nos escolher! Fizeram a eleição e todas as pessoas presentes foram unânimes ao escolherem a mim e a Sueli como os novos diretores. Foi algo que mexeu muito com a minha vida.

LD: Como foi a sua conversão?

ARLINDO: A minha conversão é uma história longa, mas eu vou resumir. Os meus pais não são cristãos, eles adoram imagens e são muito envolvidos com a magia negra. Eu cresci nesse meio. Na minha juventude encontrei Jesus através de um missionário que saiu da Holanda e foi morar perto da nossa aldeia em Guiné-Bissau. Ele levou aquele filme famoso sobre Jesus e desse modo eu me rendi ao Salvador.

Desafios e superação

LD: Qual a maior dificuldade enfrentada em Guiné-Bissau?

ARLINDO: Eu fiquei um pouco chocado na primeira vez em que voltei. Quando eu saí de lá as coisas estavam caminhando para melhor, mas houve a guerra de 1998 e o país estacionou. Ao chegarmos lá, a maior dificuldade foi a adaptação da Sueli e a questão da transferência do dinheiro do Brasil para Guiné-Bissau, tendo como principal barreira a falta de infra-estrutura na cidade para recebermos os recursos. Os desafios financeiros foram muito marcantes em nossas vidas. Passávamos alguns dias sem ter nada, recorrendo a amigos e irmãos. Aqueles primeiros momentos foram muito difíceis, principalmente para a Sueli, que estava indo pela primeira vez e se deparando com a realidade de pobreza e escassez. Essas experiências marcaram nossas vidas.

LD: Como é a recepção do evangelho em Guiné-Bissau?

SUELI: As pessoas recebem bem quando se fala do Evangelho, mas ainda são resistentes quando se trata de aceitarem a Jesus como Senhor. Principalmente entre os muçulmanos, é muito difícil. Eles ouvem e até sentam para tomar um chá com você, mas ainda há dureza no coração.

LD: Vocês têm planos de voltar ao Brasil?

SUELI: Quando Deus quiser! (risos)

LD: Quais são os planos para o futuro em Guiné-Bissau?

ARLINDO: Planos, temos muitos. Principalmente no trabalho com o Instituto Bíblico e as construções que estamos querendo fazer: a estrada, os cursos, melhorar a escola e tantos outros. Temos projetos em todos os sentidos, principalmente na área social, de saúde e educação. Estamos precisando exatamente de ajuda de algumas pessoas, professores para as escolas, médicos e enfermeiras para a clínica enfim, irmãos para ajudar a implantar igrejas… Muitas coisas temos a realizar em Guiné-Bissau!

LD: Qual é o maior orgulho de vocês como missionários?

SUELI: É difícil… Conseguir ter um bom relacionamento com o povo.

LD: Cremos que uma dúvida de muitos jovens que estão na faixa dos seus vinte e poucos anos, fazendo faculdade ou sonhando em fazer faculdade é como equilibrar ministério e realização profissional. Vocês sonharam em fazer faculdade, sonharam com uma carreira profissional? Se sonharam, como foi abrir mão disso e abraçar o ministério?

SUELI: Eu sempre fui de estudar muito. Fiz o vestibular com dezessete anos e passei já de primeira. Eu sei que isso já foi milagre de Deus na minha vida (risos). Então, quando eu me converti aos dezesseis anos de idade Deus já me chamou para o ministério, já colocou aquela consciência missionária transcultural na minha vida. Eu tinha muita certeza disso. Fiz faculdade primeiro e depois fui para o seminário. Quando eu terminei a faculdade, 20 dias depois eu já estava no seminário. Foi tudo muito rápido, muito maluco! Todos na faculdade sabiam do meu chamado, sabiam que eu estava ali não para ganhar dinheiro ou fazer carreira, nada disso. Era para eu ter mais possibilidades de trabalhar para Deus. Porém, sempre tem aquele momento em que você pensa em você, não é? E, para falar a verdade, quando eu terminei a faculdade e o seminário, ainda tentei uma carreira: fiz concurso. É o lado humano… A direção de Deus não era essa e Ele me deu vários “nãos”. Em diversas situações Ele me respondia, até mesmo através de incrédulos, que me faziam perguntas do tipo: “Mas, o que a Sueli quer afinal? Não é servir a Deus? Então, porque que ela está tentando algumas portas?” Com isso eu entendi que Deus estava me chamando atenção. Nunca tive dúvidas do meu chamado, mas na hora H, na hora de entrar no fogo, às vezes a sua humanidade ainda quer falar. Mas, o que eu digo para essa juventude de hoje que quer tentar uma carreira, saibam que, na verdade, é difícil abrir mão disso tudo. Quando eu saí da minha casa, olhava o prédio em que morava, todo bem servido, com piscina, de frente para a praia, maravilhoso. Eu não fui para missões porque não tinha outra opção, porque estava decepcionada, frustrada, ou porque achava que minha vida tinha acabado, nada disso. Eu fui para missões porque eu tenho consciência de que é o lugar onde Deus me quer, entende? Isso é o que me sustenta. É a convicção do chamado. Você tem que perder muita coisa? Tem sim. Mas é isso, missões é isso. É perder para que outros possam ganhar. Foi isso que Jesus fez conosco, Ele perdeu para que a gente pudesse ganhar. Perdeu a vida Dele para que a gente pudesse ter vida.

LD: Que conselhos vocês dariam aos jovens que aspiram missões?

SUELI: Permaneçam firmes. Olhando para aquilo que Deus falou ao seu coração, aquilo que Deus tem dirigido você! Agarre firme nessa certeza, não largue. Não haverá mais nada que vá sustentá-lo no campo missionário. Antes mesmo de sair para o campo, apóie-se na graça de Deus e naquela convicção que você tem que foi Deus quem te chamou, porque, volta a dizer, não vai ter outra coisa que vai segurar um missionário no campo, nada mais. Mesmo que tenha suporte financeiro, mesmo que tenha todo o apoio e todo recurso, mas o que vai sustentar e mantê-lo é essa convicção do chamado de Deus e essa confiança que Ele é fiel.

(Entrevista feita aos missionários Arlindo e Sueli Baro, na Igreja A.D. Missão Vida em Colégio.)

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7 Respostas to “Aventura em Guiné Bissau”

  1. Érika Gonzaga novembro 18, 2011 às 11:11 pm #

    Oi Larissa, gostei muito da entrevista, sugiro como próximo post um comentário seu sobre o artigo “A dura vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico”, que saiu na Revista Época : http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2011/11/dura-vida-dos-ateus-em-um-brasil-cada-vez-mais-evangelico.html

    • bloggdacissa novembro 18, 2011 às 11:20 pm #

      Oi, Érika!

      Vou ler o artigo que você sugeriu!
      Obrigada!

  2. Helena Borba novembro 21, 2011 às 8:37 pm #

    Oi, Larissa

    Eu também sou missionária e me identifiquei muito com o trabalho do Arlindo e Sueli. Não é fácil sair a campo e deixar todo conforto para trás. Tem que ter muita certeza do chamado.
    Prá mim valeu a pena, e agora que estou de volta ao Brasil, tenho a sensação de dever cumprido.
    Deus te abençõe!

  3. Fabiana Alvarenga dezembro 18, 2011 às 1:48 am #

    Oi!
    Estou de viagem marcada para Ruanda, em janeiro, tb vou fazer missões lá! vou ficar um mês + ou -… Realmente não é fácil, mas vale a pena responder ao chamado!
    a matéria ficou linda, me inspirou a prosseguir…
    beijos a todos!

  4. André Carvalho dezembro 23, 2011 às 5:06 am #

    Belo trabalho feito pelos missionários citados. Eu não sou evangélico, mas admiro os esforços de quem tem coragem para compartilhar sua fé.
    Se todos dividissem o que é bom, esse mundo seria bem melhor.
    Abraços a todos!
    André Carvalho

  5. Rosana Martins Lima Fernandes maio 31, 2012 às 2:56 am #

    Sou fisioterapeuta mas estou trabalhando com crianças na minha igreja há 8 anos e entrei neste site para uma pesquisa para o trabalho de missões deste domingo ( que será sobre Guiné- Bissau) ficou uma matéria muito bonita. Agora estamos intercedendo pelos missíonários do continente africano (recentemente foi aberto uma igreja nossa em Luanda)e desejo que o Senhor continue sustentando estes irmãos tão queridos neste lindo projeto. Graças a Deus!!!

    • bloggdacissa junho 6, 2012 às 6:34 pm #

      Oi, Rosana!
      Fico feliz que a metéria tenha ajudado e que Deus prospere a obra em Luanda! Não é fácil abrir mão do conforto para atender ao chamado de missões. Ore mesmo e incentive as crianças que você ensina. O campo missionário precisa de intercessores, não importa a idade.
      Um grande abraço!

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